PT

EN

ES

Mercados Sitiados: o Crime Organizado mudou. Estamos dispostos a nos adaptar para combatê-lo?

Mercados Sitiados: o Crime Organizado mudou. Estamos dispostos a nos adaptar para combatê-lo?

Adriano B. Rosas
Secretário Executivo – Cátedra Oswaldo Aranha de Segurança e Defesa

O debate público brasileiro já reconhece que o crime organizado deixou de ser apenas um problema de tráfico de drogas, comércio ilegal de armas e violência armada localizada. Facções e redes criminosas passaram a explorar formas alternativas de financiamento, usar empresas de fachada, operar plataformas digitais, lavar recursos em circuitos financeiros complexos e buscar influência sobre agentes públicos e mercados regulados. Em todos esses casos, porém, o objetivo central permanece o mesmo: ampliar os rendimentos de atividades ilícitas e reduzir os riscos de sua operação.

Contudo, não basta imaginar que o problema será resolvido apenas pela prisão de grandes lideranças, pela identificação de operadores financeiros — o chavão “siga o dinheiro” — ou pelo combate aos agentes que atuam nas camadas mais sofisticadas da economia formal, como se bastasse perseguir os criminosos que se encontram “na Faria Lima”. Essas frentes são necessárias, mas insuficientes. Os desafios tradicionais — ocupação territorial, coerção sobre populações vulneráveis, construção de governança paralela ao Estado e controle de serviços essenciais — continuam existindo e se tornando cada vez mais arraigados e evidentes. O crime organizado contemporâneo não substituiu as economias ilícitas ou a dominação territorial pela infiltração econômica em setores formais; ele passou a combinar essas dimensões.

Um caso recente que representa bem esse problema é a infiltração no setor de combustíveis. Em agosto de 2025, a Operação Carbono Oculto, conduzida por Receita Federal, Ministério Público, Polícias Estaduais e outros órgãos, revelou a dimensão da atuação criminosa em um mercado regulado e estratégico. Segundo dados divulgados pela Receita Federal e reportados pela imprensa internacional, o esquema envolveu mais de R$ 10 bilhões em importações, R$ 52 bilhões em vendas domésticas, mais de R$ 46 bilhões movimentados por fintechs, centenas de mandados de busca e o bloqueio de mais de R$ 1 bilhão em ativos. O que esse caso revela é decisivo: organizações criminosas podem usar mercados formais como infraestrutura de expansão, lavagem de capitais e proteção patrimonial.

Mesmo os rincões da Amazônia não estão livres dessa infiltração. Estudo divulgado pelo projeto Amazônia 2030 mostrou que a repressão às rotas aéreas do tráfico contribuiu para deslocar parte da circulação de drogas para os rios, fenômeno associado a cerca de 1.430 mortes entre 2005 e 2020 em municípios ribeirinhos. Em 2025, relatório do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, resumido pela Associated Press, apontou a presença de facções em 344 dos 772 municípios da Amazônia brasileira. Trata-se da fusão entre ocupação territorial, tráfico de drogas, narcogarimpo, extração ilegal de madeira, controle de rotas, coerção sobre populações locais e erosão concreta (ou ocupação do vazio de legitimidade) da presença estatal em áreas estratégicas.

O mesmo vale para a dimensão transnacional. Relatórios e operações recentes de agências europeias de segurança têm registrado o uso de Brasil, Equador e Colômbia como os principais pontos de origem ou trânsito de cocaína destinada ao mercado europeu. A economia ilícita que sai daqui não se fecha nas nossas fronteiras; ela conecta hidrovias amazônicas, rodovias sul-americanas, portos atlânticos e mercados consumidores distantes. E a expansão do PCC já entra, inclusive, na linguagem da segurança hemisférica: em maio de 2025, autoridades americanas afirmaram a representantes brasileiros que haviam identificado células do PCC e do Comando Vermelho em 12 estados dos Estados Unidos.

Também se tornam mais porosas as fronteiras entre crime organizado, terrorismo e outras formas de violência política. Embora sejam fenômenos distintos, eles podem compartilhar rotas, mecanismos financeiros, tecnologias, redes de contrabando, armas, plataformas digitais e formas de cooperação oportunista. Em diferentes partes do mundo, grupos criminosos e extremistas se aproximam não por afinidade ideológica, mas por conveniência logística e econômica. Essa zona cinzenta exige novas ferramentas analíticas e maior cooperação internacional.

É nesse contexto que a perspectiva da segurança multidimensional se torna indispensável. A Declaração sobre Segurança nas Américas, aprovada no âmbito da Organização dos Estados Americanos em 2003, já reconhecia que as ameaças contemporâneas não cabem em uma única dimensão. Elas envolvem segurança pública, desenvolvimento, instituições, fronteiras, economia, tecnologia, meio ambiente e cooperação internacional. O crime organizado transnacional é talvez uma das expressões mais claras dessa realidade: nenhum país, agência ou setor consegue enfrentá-lo isoladamente.

Foi justamente a partir dessa constatação que a Cátedra Oswaldo Aranha de Segurança e Defesa e a Escola de Segurança Multidimensional do Instituto de Relações Internacionais da USP promoveram, nos dias 9 e 10 de junho, o Seminário Internacional “Mercados Sitiados: Crime Organizado Transnacional e a Ascensão das Economias Ilícitas nas Américas”, reunindo especialistas do Brasil, Estados Unidos, Europa e América Latina para discutir os novos padrões de infiltração criminal em mercados formais e os desafios contemporâneos da cooperação internacional no enfrentamento ao crime organizado transnacional. O seminário debateu temas como captura de mercados regulados, combustíveis, tabaco, economias ilícitas na Amazônia, lavagem de ativos, crimes cibernéticos, segurança portuária, governança criminal, cooperação público-privada e o nexo entre crime organizado e terrorismo.

Entre os participantes nacionais, o seminário reuniu representantes do sistema de justiça, da administração pública, do setor financeiro e da indústria diretamente envolvidos nos desafios da governança criminal e da proteção de mercados regulados. Estiveram presentes Márcia Meng, Superintendente da Receita Federal na 8ª Região Fiscal (São Paulo), com ampla experiência em fiscalização tributária, aduaneira e enfrentamento a fraudes complexas; Maurício Santos Silva, Coordenador-Geral de Combate ao Contrabando e Descaminho da Receita Federal do Brasil e chefe da Divisão de Gestão de Riscos para a Repressão ao Contrabando e Descaminho; João Paulo de Souza, Promotor de Justiça e integrante do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado de São Paulo (GAECO-SP); Paulo Vitor da Silva, Procurador do Estado de São Paulo (PGE-SP), com atuação em temas relacionados à infiltração criminal em mercados regulados; Fabian Franco, Superintendente de Prevenção à Lavagem de Dinheiro do Banco Itaú; e Marcelo Thomé, vice-presidente da Confederação Nacional da Indústria (CNI), presidente do Instituto Amazônia+21 e referência em debates sobre desenvolvimento sustentável e proteção econômica da Amazônia. 

No plano internacional, o evento contou com pesquisadores e especialistas reconhecidos internacionalmente por sua atuação no enfrentamento às economias ilícitas, à governança criminal e à cooperação em segurança. Participaram Togzhan Kassenova, pesquisadora da University at Albany (SUNY) e professora visitante do Instituto de Relações Internacionais da USP; Vanda Felbab-Brown, pesquisadora sênior da Brookings Institution e referência internacional em economias ilícitas e conflitos; Erin McFee, presidente do Corioli Institute e especialista em governança criminal e reintegração em contextos de violência organizada; Rebecca Chávez, presidente e CEO do Inter-American Dialogue e referência em segurança hemisférica e cooperação interamericana; Atanas Rusev, diretor do Programa de Segurança do Center for the Study of Democracy (Bulgária); Carl Alexandre, que atuou como Representante Especial Adjunto do Secretário-Geral das Nações Unidas para a Missão de Estabilização no Haiti (MINUSTAH) entre 2013 e 2015, além de ter exercido funções de liderança no Departamento de Justiça dos Estados Unidos; Daniel Cevallos, decano da Escola de Segurança e Defesa do Instituto de Altos Estudios Nacionales (IAEN), no Equador; e o General Juan Carlos Buitrago Arias, que dirigiu a Polícia Fiscal e Aduaneira da Colômbia (POLFA) entre 2016 e 2018, tornando-se uma referência regional no combate ao contrabando e às economias ilícitas. 

Mais do que apresentar diagnósticos, o encontro reforçou uma percepção compartilhada entre acadêmicos, formuladores de políticas públicas, representantes do sistema de justiça e especialistas internacionais: o crime organizado contemporâneo tornou-se adaptativo, empresarial e transnacional — e sua capacidade de infiltração em mercados lícitos exige respostas igualmente coordenadas, baseadas em inteligência, cooperação interinstitucional e articulação entre setor público, academia e iniciativa privada.

Se existe uma conclusão central a extrair desse debate, é que estamos diante de um fenômeno em transformação acelerada. O crime organizado já compreendeu como explorar as vulnerabilidades de um mundo globalizado, digitalizado e economicamente interdependente. A pergunta que permanece é como nossas instituições públicas e privadas — e nossa capacidade de cooperação — conseguirão se adaptar com a mesma velocidade.

 

Mais informações: https://esem.org.br/pt/seminario-internacional-catedra-oswaldo-aranha/?



Markets Under Siege: Organized Crime Has Changed. Are We Prepared to Adapt in Order to Combat It?

Adriano B. Rosas
Executive Secretary – Oswaldo Aranha Chair for Security and Defense

Brazilian public debate increasingly recognizes that organized crime is no longer solely a matter of drug trafficking, illegal arms trade, or localized armed violence. Criminal factions and networks have expanded into alternative financing mechanisms, shell companies, digital platforms, complex financial laundering schemes, and influence over public officials and regulated markets. Yet, despite these evolving methods, the central objective remains unchanged: to maximize profits from illicit activities while minimizing operational risks.

At the same time, it would be a mistake to assume that organized crime can be effectively addressed simply by imprisoning high-profile leaders, tracing financial operators through the familiar logic of “following the money,” or focusing exclusively on actors embedded in the more sophisticated layers of the formal economy, as though the challenge were confined to white-collar criminality in elite financial circles. While such measures remain essential, they are far from sufficient. Longstanding dynamics of organized crime — including territorial occupation, coercion of vulnerable populations, the establishment of parallel systems of governance, and control over essential services — continue to shape everyday realities in many regions and, in some cases, have become even more visible. What distinguishes contemporary organized crime is not the replacement of territorial domination or illicit economies by economic infiltration into formal sectors, but rather the growing ability to combine and integrate these different dimensions into increasingly sophisticated and resilient structures.

A recent example that illustrates this transformation is criminal infiltration in the fuel sector. In August 2025, Operation Hidden Carbon (Operação Carbono Oculto), conducted by Brazil’s Federal Revenue Service, Public Prosecutor’s Offices, State Police forces, and other agencies, exposed the scale of criminal activity within a regulated and strategic market. According to data released by Brazil’s Federal Revenue Service and reported by the international press, the scheme involved more than R$10 billion in imports (approximately US$1.8 billion), R$52 billion in domestic sales (approximately US$9.4 billion), over R$46 billion moved through fintech platforms (approximately US$8.3 billion), hundreds of search warrants, and the freezing of more than R$1 billion in assets (approximately US$180 million). What this case reveals is decisive: criminal organizations can exploit formal markets as infrastructure for expansion, money laundering, and asset protection.

Even the remote regions of the Amazon are not immune to this process of infiltration. A study released by the Amazônia 2030 project found that efforts to repress aerial drug trafficking routes contributed to shifting part of the drug trade toward river systems, a phenomenon associated with approximately 1,430 deaths between 2005 and 2020 in riverine municipalities. In 2025, a report by the Brazilian Public Security Forum, summarized by the Associated Press, identified the presence of criminal factions in 344 of the 772 municipalities in the Brazilian Amazon. This reflects the convergence of territorial occupation, drug trafficking, illegal mining, illicit timber extraction, route control, coercion over local populations, and the erosion of state presence in strategically important regions.

The same logic applies to the transnational dimension of organized crime. Recent reports and operations by European security agencies have identified Brazil, Ecuador, and Colombia as major points of origin or transit for cocaine destined for European markets. The illicit economy emerging from Latin America does not stop at national borders; it connects Amazonian waterways, South American highways, Atlantic ports, and distant consumer markets. Even the expansion of the PCC (Primeiro Comando da Capital) is increasingly framed within the language of hemispheric security: in May 2025, U.S. authorities reportedly informed Brazilian representatives that they had identified PCC and Comando Vermelho cells operating in twelve U.S. states.

The boundaries between organized crime, terrorism, and other forms of political violence have also become increasingly porous. Although distinct phenomena, they may share routes, financial mechanisms, technologies, smuggling networks, weapons, digital platforms, and opportunistic forms of cooperation. Across different regions of the world, criminal and extremist groups often collaborate not because of ideological affinity, but due to logistical and economic convenience. This gray zone demands new analytical tools and deeper international cooperation.

It is in this context that the multidimensional security perspective becomes indispensable. The Declaration on Security in the Americas, adopted within the framework of the Organization of American States in 2003, already recognized that contemporary threats cannot be understood through a single dimension. They encompass public security, development, institutions, borders, economics, technology, the environment, and international cooperation. Transnational organized crime is perhaps one of the clearest expressions of this reality: no country, agency, or sector can confront it alone.

It was precisely from this understanding that the Oswaldo Aranha Chair on Security and Defense and the Multidimensional Security School of the University of São Paulo’s Institute of International Relations hosted, on June 9–10, the International Seminar “Markets Under Siege: Transnational Organized Crime and the Rise of Illicit Economies in the Americas.” The event brought together specialists from Brazil, the United States, Europe, and Latin America to discuss new patterns of criminal infiltration into formal markets and the contemporary challenges of international cooperation in addressing transnational organized crime. Topics included the capture of regulated markets, fuel and tobacco illicit economies, criminal governance in the Amazon Basin, money laundering, cybercrime, port security, public-private cooperation, and the crime-terror nexus.

Among the Brazilian speakers were representatives from the justice system, public administration, the financial sector, and industry directly engaged with challenges related to criminal governance and the protection of regulated markets. Participants included Márcia Meng, Superintendent of Brazil’s Federal Revenue Service in the 8th Fiscal Region (São Paulo), with extensive experience in tax enforcement, customs oversight, and the fight against complex fraud schemes; Maurício Santos Silva, General Coordinator for the Fight Against Smuggling and Customs Fraud at Brazil’s Federal Revenue Service and Head of the Risk Management Division for Smuggling and Customs Fraud Enforcement; João Paulo de Souza, Prosecutor and member of São Paulo’s Special Task Force to Combat Organized Crime (GAECO-SP); Paulo Vitor da Silva, State Attorney of São Paulo (PGE-SP), with expertise in criminal infiltration into regulated markets; Fabian Franco, Superintendent for Anti-Money Laundering at Itaú Bank; and Marcelo Thomé, Vice President of Brazil’s National Confederation of Industry (CNI) and President of Instituto Amazônia+21, a leading voice in debates on sustainable development and economic protection in the Amazon.

At the international level, the event included globally recognized scholars and practitioners in illicit economies, criminal governance, and international security cooperation. Participants included Togzhan Kassenova, researcher at the University at Albany (SUNY) and visiting professor at the University of São Paulo’s Institute of International Relations; Vanda Felbab-Brown, Senior Fellow at the Brookings Institution and an internationally recognized authority on illicit economies and conflict; Erin McFee, President of the Corioli Institute and specialist in criminal governance and reintegration in contexts of organized violence; Rebecca Chávez, President and CEO of the Inter-American Dialogue and a leading voice on hemispheric security and inter-American cooperation; Atanas Rusev, Director of the Security Program at the Center for the Study of Democracy (Bulgaria); Carl Alexandre, who served as Deputy Special Representative of the United Nations Secretary-General for the United Nations Stabilization Mission in Haiti (MINUSTAH) between 2013 and 2015 and held senior leadership roles within the U.S. Department of Justice; Daniel Cevallos, Dean of the School of Security and Defense at Ecuador’s Institute of Higher National Studies (IAEN); and General Juan Carlos Buitrago Arias, who led Colombia’s Fiscal and Customs Police (POLFA) between 2016 and 2018, becoming a regional reference in combating smuggling and illicit economies. 

More than simply presenting diagnoses, the seminar reinforced a shared perception among academics, policymakers, justice sector representatives, and international specialists: contemporary organized crime has become adaptive, entrepreneurial, and transnational — and its ability to infiltrate licit markets requires equally coordinated responses grounded in intelligence-sharing, interinstitutional cooperation, and stronger collaboration between the public sector, academia, and private actors.

If there is one central conclusion to be drawn from these discussions, it is that we are confronting a phenomenon undergoing rapid transformation. Organized crime has already learned how to exploit the vulnerabilities of an increasingly globalized, digitized, and economically interdependent world. The remaining question is weather and how our public and private institutions — and our collective capacity for cooperation — will be able to adapt at the same pace.

 

Publicaciones recientes

Tem alguma dúvida?

Entre em contato com nossa equipe.

canaldeduvidas_esem@usp.br

+55 11 95078.1081

ES