Texto: Daniela Echeverri Fierro
Um quilo de cocaína produzido na Colômbia é vendido no mercado consumidor norte-americano por um valor aproximadamente 25 vezes superior ao seu custo de produção. Os recursos gerados por essa comercialização são transferidos para a Ásia por meio de operações com criptoativos utilizadas por organizações criminosas para movimentar e ocultar recursos ilícitos entre diferentes países. Na Ásia, esse capital é empregado na compra de cigarros falsificados. Uma única operação bem sucedida de tráfico de cocaína pode financiar a aquisição de mais de dois milhares maços de cigarros, que posteriormente retornam por contrabando aos mercados da América Central e do Caribe.
O caso ilustra como mercados ilícitos distintos, como o tráfico de drogas, os serviços financeiros clandestinos e o contrabando, convergem em uma mesma cadeia criminal transnacional, multiplicando os lucros e ampliando o alcance das organizações envolvidas.
Esse caso ilustrativo, ocorrido há três anos, foi o exemplo apresentado por Iván Marques, secretário de Segurança Multidimensional da Organização dos Estados Americanos (OEA), para explicar um dos grandes desafios enfrentados pelos Estados no combate ao crime organizado transnacional em um contexto de instabilidade regional.
A análise foi apresentada durante a Conferência de Abertura do Semestre da Escola de Segurança Multidimensional da Universidade de São Paulo (ESEM-IRI-USP), promovida em 3 de agosto, na Sala da Congregação do Instituto de Relações Internacionais da USP (IRI-USP), intitulada “A Segurança Multidimensional nas Américas em Tempos de Crise: a OEA diante do Crime Organizado Transnacional e da Instabilidade Regional”.
O aumento do comércio global e a expansão contínua dos meios de comunicação permitiu ao crime organizado se adaptar rapidamente, explorando portos, cadeias logísticas, plataformas tecnológicas e sistemas financeiros para operar com mais eficiência e escalar seus negócios ilícitos a uma velocidade inédita.
Essa capacidade permite que as organizações criminosas identifiquem e explorem brechas antes que as normas e as respostas legítimas dos Estados consigam acompanhar essas transformações.
Enquanto as organizações criminosas integram diferentes delitos, mercados e países em suas estratégias de financiamento, os Estados ainda atuam de forma fragmentada. A cooperação entre países permanece limitada e, internamente, diferentes instituições respondem a diferentes tipos de crime, dificultando uma visão abrangente do problema e a construção de estratégias capazes de enfrentar suas múltiplas dimensões de forma coordenada. Essa fragmentação permite que, enquanto o Estado concentra esforços em uma frente, outras continuem operando e se fortalecendo.
A estrutura dessas organizações também mudou. No passado, elas eram mais hierarquizadas e concentravam o comando em lideranças claramente identificáveis, que exerciam controle sobre grande parte da operação. Pablo Escobar, na Colômbia, é um dos exemplos mais conhecidos desse modelo. Nesses casos, a captura ou a morte de uma liderança podia provocar uma forte desarticulação da organização.
Atualmente, o panorama é diferente, explica o secretário. O crime organizado tende a operar por meio de estruturas mais descentralizadas, nas quais diferentes grupos ou lideranças assumem responsabilidades específicas ao longo das cadeias de produção e logística, sem que necessariamente exista um único comando sobre todo o processo. Assim, quando uma liderança é capturada, outras partes da estrutura podem continuar operando, reorganizar funções e adaptar-se às novas pressões.
As respostas legítimas dos Estados tendem a ser mais lentas, pois precisam respeitar normas, protocolos e procedimentos diplomáticos, o que pode dificultar uma reação ágil e eficaz diante do crime organizado. Marques ressalta que isso não significa que os Estados devam se colocar no mesmo nível das organizações criminosas ou ignorar a legislação em nome da rapidez. Pelo contrário, o desafio está em estabelecer protocolos claros e eficientes, adaptados à realidade de cada país, que permitam dar maior agilidade às respostas institucionais e, especialmente, à cooperação internacional.
“É preciso construir instituições preparadas, interoperáveis e capazes de aprender, preservando a legalidade, os direitos e a legitimidade” , concluiu o Secretário.
Da esquerda para a direita: José Carlos Meirelles, da Universidade Presbiteriana Mackenzie; Leandro Piquet Carneiro, coordenador da ESEM-IRI-USP; Ivan C. Marques, secretário de Segurança Multidimensional da Organização dos Estados Americanos (OEA); e o coronel reformado José Vicente da Silva Filho, membro do Conselho da ESEM-IRI-USP, durante a Conferência de Abertura do Semestre da ESEM-USP.


