Parceria da Escola de Segurança Multidimensional do IRI com a IILA já formou servidores e investigadores brasileiros na prevenção da infiltração criminosa em contratos públicos
Segunda edição do curso Prevenção das Infiltrações Criminosas e Fortalecimento da Transparência nos Contratos Públicos reuniu 60 profissionais de órgãos de segurança, controle e Justiça no Instituto de Relações Internacionais da USP, em julho de 2026.
A Universidade de São Paulo, por meio da Escola de Segurança Multidimensional (ESEM), assinou em 14 de outubro de 2026 um acordo de cooperação com a Organização Internacional Ítalo-Latino-Americana (IILA). O acordo estabelece as bases para a realização conjunta de seminários, cursos, pesquisas e amplia o alcance de uma série de iniciativas desenvolvidas pelas duas instituições desde 2025.
A experiência italiana no combate ao crime organizado é reconhecida mundialmente por ter consolidado um modelo multidimensional, que integra a ação judicial, a cooperação institucional, o controle administrativo, a promoção da cultura da legalidade e o confisco do patrimônio ilícito. Ao atacar as fontes de financiamento das máfias e controlar o acesso aos contratos públicos, o modelo busca impedir que essas organizações se infiltrem na economia legal e ampliem seus recursos com dinheiro do Estado.
“São dois os países que inovaram na legislação antimáfia: os Estados Unidos, com a Lei RICO, de 1970, e a Itália, a partir dos anos 1980 e sobretudo após os assassinatos dos juízes Giovanni Falcone e Paolo Borsellino, em 1992. Criaram novas leis, inventaram o conceito de duplo binário e a investigação preventiva”, explica o professor Leandro Piquet Carneiro, coordenador da ESEM.
O duplo binário parte da ideia de que as organizações mafiosas devem ser enfrentadas de forma diferente do crime comum. Isso se traduz em prazos maiores de prisão preventiva, mais instrumentos de investigação, restrição de benefícios penitenciários e isolamento dos chefes mafiosos nas prisões.
Para Piquet Carneiro, separar os presos dentro do sistema prisional é uma medida urgente no Brasil, onde facções como o Primeiro Comando da Capital (PCC) usam os presídios para recrutar novos integrantes. Muitos desses presos cometeram um único crime e, segundo o professor, poderiam abandonar a vida criminosa depois de cumprir a pena, se não fossem cooptados.
A investigação preventiva, por sua vez, pressupõe que o Estado acompanhe as organizações criminosas de forma contínua, para entender como operam e se antecipar às suas próximas ações. Na Itália, essa função cabe à Direção Investigativa Antimáfia (DIA), que reúne as forças policiais, em articulação com a Direção Nacional Antimáfia (DNA), no âmbito do Ministério Público. Piquet Carneiro defende a criação de um órgão semelhante no Brasil, capaz de coordenar a atuação conjunta de polícias, Ministério Público e órgãos de inteligência financeira e tributária.
Fabio Ramazzini Bechara, presidente do Conselho da ESEM, avalia que as organizações criminosas da Itália e do Brasil apresentam semelhanças na forma como se estruturaram, se desenvolveram e se expandiram. “E isso nos exige estreitar e aprofundar esse relacionamento com a experiência italiana”, afirma.
A IILA é uma organização intergovernamental criada em 1966 com o objetivo de promover e fortalecer as relações entre a Itália e a América Latina. Formada pela Itália e por 20 repúblicas latino-americanas, entre elas o Brasil, a organização é membro observador da Assembleia Geral das Nações Unidas desde 2007 e colabora continuamente com o Ministério das Relações Exteriores italiano na concepção e realização das Conferências Itália-América Latina e Caribe.
A parceria entre a USP e a IILA começou no âmbito do Programa Falcone-Borsellino, com o curso online Prevenção das Infiltrações Criminosas e Fortalecimento da Transparência nos Contratos Públicos. A formação reuniu 230 alunos, entre integrantes de forças policiais e de unidades de investigação de crimes econômicos e organizados, magistrados, procuradores, gestores de licitações e servidores de órgãos de controle e auditoria. As aulas foram ministradas por professores da Itália, do Brasil e de Moçambique. O objetivo era compartilhar ferramentas concretas de combate ao crime organizado e fortalecer a transparência na gestão dos contratos públicos.
Em julho de 2026, a segunda edição do curso foi realizada de forma presencial no Instituto de Relações Internacionais da USP, com 60 participantes de instituições como a Polícia Federal, a Receita Federal, o Conselho de Controle de Atividades Financeiras (COAF), o Ministério Público e o Tribunal de Contas do Estado de São Paulo. Entre as atividades, a Conferência de Consenso reuniu mais de 300 pessoas no auditório do Ministério Público do Estado de São Paulo para discutir oportunidades de cooperação no combate ao crime organizado transnacional.
Conferência de Consenso “Para além das fronteiras do crime” reuniu mais de 300 pessoas no Auditório Queiroz Filho do Ministério Público do Estado de São Paulo, em 23 de julho de 2026.
“A IILA, sem dúvida alguma, enquanto organismo internacional, é uma das principais referências no mundo e, em particular, na Europa, e promove uma agenda muito intensa de aproximação da experiência italiana com a realidade da América Latina em geral. Isso se alinha totalmente com os esforços de expansão que a ESEM tem feito nos últimos anos para incrementar as políticas de prevenção e repressão aos mercados ilícitos e ao crime organizado na nossa região”, conclui Bechara.
Daniela Echeverri Fierro,
Coordenadora de Comunicação da ESEM


