Ministério da Saúde lança ferramenta de prevenção ao consumo problemático de álcool com apoio da USP

Ministério da Saúde lança ferramenta de prevenção ao consumo problemático de álcool com apoio da USP

Disponível no Meu SUS Digital, o Modera Brasil permite avaliar padrões de  consumo de álcool e oferece orientações de acordo com os riscos identificados.

O Ministério da Saúde lançou o Modera Brasil, ferramenta digital voltada à prevenção do consumo problemático de álcool, disponível no aplicativo Meu SUS Digital. Desenvolvida com apoio científico da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP) e da Escola de Segurança Multidimensional (ESEM), a ferramenta é baseada no protocolo de Triagem e Intervenção Breve recomendado pela Organização Mundial da Saúde (OMS). Por meio dela, qualquer pessoa pode avaliar o próprio padrão de consumo e receber orientações personalizadas para reduzir os riscos à saúde.

Nas primeiras horas após o lançamento, o Modera Brasil registrou cerca de 5 mil acessos e mais de 3 mil triagens, com taxa de conclusão de 93%. Os dados foram apresentados pela secretária de Informação e Saúde Digital do Ministério da Saúde, Ana Estela Haddad, durante o evento de lançamento.

Como parte da iniciativa, a ESEM-USP oferece o curso “Modera Brasil para Prevenção ao Consumo Problemático de Álcool”. A formação prepara profissionais de saúde para identificar padrões de consumo de risco, aplicar instrumentos de triagem e orientar pacientes sobre a redução dos danos associados ao álcool.

Para Liane Kiyomi Suzuki Yamai, nutricionista da Unidade Básica de Saúde (UBS) Vila Anglo, que participou da formação quando a ferramenta ainda estava em fase de testes na cidade de São Paulo, o curso “foi um divisor de águas em relação ao acompanhamento de usuário de bebida alcoólica”. Desde então, ela passou a investigar com mais atenção os hábitos de consumo de álcool dos pacientes. Quando identifica sinais de risco, aplica o questionário AUDIT (Alcohol Use Disorders Identification Test) durante a consulta.

Validado internacionalmente para o rastreamento do consumo de risco, o AUDIT é o instrumento de avaliação utilizado no Modera Brasil. O questionário pode ser respondido pela própria pessoa no aplicativo ou aplicado por profissionais de saúde durante o atendimento. De acordo com a pontuação, o usuário é classificado em zonas de risco e direcionado a uma jornada específica dentro da plataforma, com conteúdos informativos, exercícios interativos e, quando necessário, orientações para buscar atendimento na Rede de Atenção à Saúde.

A nutricionista conta que, ao conhecer o AUDIT, considerou as perguntas bem direcionadas e adequadas para levar o paciente a “realmente refletir” sobre o próprio consumo. Mas foi o acompanhamento de um paciente que mais a impressionou.

Na época, o homem tinha cerca de 57 anos, era diabético, hipertenso, tinha doença de Chagas, havia sofrido dois infartos e apresentava dores crônicas nos joelhos e na região lombar. Encaminhado à nutricionista após exames que apontaram níveis elevados de colesterol e triglicerídeos, relatou durante a consulta que bebia “bastante”. Ao ser questionado sobre a quantidade, revelou que consumia dois litros de aguardente por dia. Diante da informação, Liane decidiu aplicar o AUDIT.

A nutricionista passou a acompanhá-lo com consultas mais frequentes, e o caso também foi encaminhado ao Centro de Atenção Psicossocial Álcool e Drogas (CAPS AD). Ao longo do acompanhamento, sua pontuação na escala de risco caiu acentuadamente e na última avaliação seu consumo foi classificado como de baixo risco. Segundo Liane, o paciente também apresentou melhora nos níveis de colesterol e triglicerídeos e relatou ter interrompido o consumo de álcool.

Por se tratar de um caso isolado, não é possível atribuir a evolução apenas ao questionário. A experiência, no entanto, ilustra como a triagem, combinada ao acompanhamento contínuo e à rede de atenção psicossocial, pode contribuir para identificar situações de risco e orientar o cuidado.

Sobre o projeto

O projeto que deu origem ao Modera Brasil começou em 2015, quando o professor Leandro Piquet Carneiro, coordenador da Escola de Segurança Multidimensional da Universidade de São Paulo (ESEM-USP), participou da criação do programa Brasília Vida Segura. A iniciativa foi voltada à prevenção dos problemas de saúde e segurança pública associados ao consumo abusivo de álcool, especialmente a violência no trânsito e a violência doméstica.

O desenvolvimento do projeto contou com financiamento da AB InBev Foundation, fundação que apoia iniciativas de saúde pública, prevenção dos danos associados ao consumo de álcool e desenvolvimento sustentável.

Em parceria com o Governo do Distrito Federal, a USP coordenou a formação de um comitê científico que contou com a participação do pesquisador Peter Anderson, especialista internacional em prevenção do consumo problemático de álcool. O grupo introduziu o protocolo de Triagem e Intervenção Breve nas práticas de Atenção Primária à Saúde do Distrito Federal, com a tradução do instrumento e a capacitação de profissionais para identificar padrões de consumo de risco e orientar pacientes.

Com a pandemia de covid-19 e a expansão dos serviços digitais de saúde, o projeto passou por uma nova etapa. A ESEM-USP, em colaboração com a Faculdade de Medicina da USP e com um hub de empresas de inovação liderado pela Auíri, trabalhou na adaptação do protocolo para o ambiente digital e na implementação da ferramenta no Sistema Único de Saúde (SUS) de São Paulo. A iniciativa contou com o acompanhamento de um novo comitê científico e com pesquisas sobre a adesão dos usuários ao instrumento.

A experiência acumulada ao longo do desenvolvimento do projeto contribuiu para a criação do Modera Brasil, agora disponível no Meu SUS Digital. Para a fase piloto de implementação, o Ministério da Saúde selecionou Florianópolis e Rio de Janeiro, em um contexto de aumento do consumo episódico excessivo de álcool, especialmente entre mulheres, identificado por pesquisas nacionais.

Com a chegada do Modera Brasil ao Meu SUS Digital, o projeto entra em uma etapa voltada à ampliação do acesso à ferramenta e ao acompanhamento de seus resultados em escala nacional. Para o professor Martino Martinelli Filho, a universidade continuará desempenhando um papel importante nesse processo: “É justamente nesse ponto que acredito que a universidade pode continuar contribuindo, ajudando a transformar dados em conhecimento, conhecimento em evidência é evidência em melhores políticas de saúde.”



Nas primeiras horas após o lançamento, o Modera Brasil registrou cerca de 5 mil acessos e mais de 3 mil triagens, com taxa de conclusão de 93%. Os dados foram apresentados pela secretária de Informação e Saúde Digital do Ministério da Saúde, Ana Estela Haddad, durante o evento de lançamento.

Como parte da iniciativa, a ESEM-USP oferece o curso “Modera Brasil para Prevenção ao Consumo Problemático de Álcool”. A formação prepara profissionais de saúde para identificar padrões de consumo de risco, aplicar instrumentos de triagem e orientar pacientes sobre a redução dos danos associados ao álcool.

Para Liane Kiyomi Suzuki Yamai, nutricionista da Unidade Básica de Saúde (UBS) Vila Anglo, que participou da formação quando a ferramenta ainda estava em fase de testes na cidade de São Paulo, o curso “foi um divisor de águas em relação ao acompanhamento de usuário de bebida alcoólica”. Desde então, ela passou a investigar com mais atenção os hábitos de consumo de álcool dos pacientes. Quando identifica sinais de risco, aplica o questionário AUDIT (Alcohol Use Disorders Identification Test) durante a consulta.

Validado internacionalmente para o rastreamento do consumo de risco, o AUDIT é o instrumento de avaliação utilizado no Modera Brasil. O questionário pode ser respondido pela própria pessoa no aplicativo ou aplicado por profissionais de saúde durante o atendimento. De acordo com a pontuação, o usuário é classificado em zonas de risco e direcionado a uma jornada específica dentro da plataforma, com conteúdos informativos, exercícios interativos e, quando necessário, orientações para buscar atendimento na Rede de Atenção à Saúde.

A nutricionista conta que, ao conhecer o AUDIT, considerou as perguntas bem direcionadas e adequadas para levar o paciente a “realmente refletir” sobre o próprio consumo. Mas foi o acompanhamento de um paciente que mais a impressionou.

Na época, o homem tinha cerca de 57 anos, era diabético, hipertenso, tinha doença de Chagas, havia sofrido dois infartos e apresentava dores crônicas nos joelhos e na região lombar. Encaminhado à nutricionista após exames que apontaram níveis elevados de colesterol e triglicerídeos, relatou durante a consulta que bebia “bastante”. Ao ser questionado sobre a quantidade, revelou que consumia dois litros de aguardente por dia. Diante da informação, Liane decidiu aplicar o AUDIT.

A nutricionista passou a acompanhá-lo com consultas mais frequentes, e o caso também foi encaminhado ao Centro de Atenção Psicossocial Álcool e Drogas (CAPS AD). Ao longo do acompanhamento, sua pontuação na escala de risco caiu acentuadamente e na última avaliação seu consumo foi classificado como de baixo risco. Segundo Liane, o paciente também apresentou melhora nos níveis de colesterol e triglicerídeos e relatou ter interrompido o consumo de álcool.

Por se tratar de um caso isolado, não é possível atribuir a evolução apenas ao questionário. A experiência, no entanto, ilustra como a triagem, combinada ao acompanhamento contínuo e à rede de atenção psicossocial, pode contribuir para identificar situações de risco e orientar o cuidado.

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Daniela Echeverri Fierro,
Coordenadora de Comunicação da ESEM

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