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Seminário da Escola de Segurança Multidimensional destaca que saúde mental dos policiais depende também da qualidade da gestão

Seminário da Escola de Segurança Multidimensional destaca que saúde mental dos policiais depende também da qualidade da gestão

Especialistas defendem que programas de atendimento psicológico precisam ser acompanhados de mudanças na liderança, na justiça procedimental e nas políticas internas das organizações policiais.


A saúde mental dos profissionais de segurança pública foi o tema central do seminário promovido pela Escola de Segurança Multidimensional do Instituto de Relações Internacionais da Universidade de São Paulo (IRI/USP). Coordenado pelo coronel da reserva José Vicente da Silva Filho, mestre em Psicologia Social pela USP, o encontro reuniu pesquisadores, psicólogos e gestores para discutir um desafio estratégico: como reduzir o adoecimento psicológico por meio de mudanças na gestão das organizações policiais.


Durante o seminário, o coronel da reserva Nelson Souza apresentou um panorama dos programas de valorização profissional existentes nas polícias brasileiras, observando que diversas iniciativas possuem baixa implementação ou reduzido impacto efetivo. O coronel da reserva Motooka descreveu a experiência da Polícia Militar do Estado de São Paulo, que mantém mais de uma centena de núcleos de atendimento psicológico. O professor Maicoln, da UFMG, apresentou o Escuta SUS, iniciativa nacional de apoio psicológico aos profissionais de segurança pública. Encerrando o painel de especialistas, o coronel Jacintho Del Vecchio discutiu estratégias de recursos humanos voltadas à prevenção do adoecimento e ao desenvolvimento de
lideranças.


A conferência de encerramento procurou deslocar o foco tradicional do debate. Em vez de perguntar apenas como tratar policiais adoecidos, propôs discutir por que tantos profissionais adoecem em organizações altamente comprometidas com sua missão. Baseada no Grid Gerencial de Blake e Mouton e em pesquisas contemporâneas sobre justiça procedimental, a apresentação mostrou que estilos de liderança, qualidade das relações hierárquicas e percepção de tratamento justo influenciam diretamente o clima organizacional, a
satisfação no trabalho e o risco de estresse crônico.

 

Os resultados de pesquisas apresentados durante o seminário revelam um paradoxo. Os policiais demonstram elevada identificação com a instituição e forte comprometimento com sua missão, mas convivem com percepções reduzidas de justiça procedimental, baixo reconhecimento e poucas oportunidades para expressar opiniões. Essa combinação pode transformar o orgulho profissional em fator de vulnerabilidade quando expectativas elevadas encontram ambientes organizacionais percebidos como injustos.


Foi enfatizado que serviços psicológicos são indispensáveis, mas atuam predominantemente depois que o sofrimento já se instalou. A prevenção exige eliminar fatores organizacionais que alimentam o estresse cotidiano: liderança inadequada, comunicação deficiente, reconhecimento insuficiente, ausência de participação e decisões percebidas como arbitrárias. A literatura científica demonstra que justiça procedimental e liderança integradora funcionam como fatores protetivos contra o burnout.


Essa perspectiva representa uma mudança de paradigma. Em vez de concentrar investimentos apenas no atendimento das consequências, as organizações policiais precisam fortalecer políticas permanentes de prevenção do adoecimento ocupacional. Isso significa desenvolver lideranças capazes de conciliar desempenho e respeito às pessoas, aperfeiçoar práticas de gestão de recursos humanos e construir ambientes de trabalho baseados em confiança, participação e reconhecimento.


Como síntese do seminário, consolidou-se uma mensagem: a verdadeira política de saúde mental começa antes do consultório do psicólogo. Ela começa na forma como o policial é liderado, ouvido, reconhecido e tratado dentro da própria organização. Investir na qualidade da liderança e na justiça organizacional não apenas protege os profissionais, mas fortalece a legitimidade institucional e a capacidade das polícias de prestar um serviço público mais eficiente, humano e confiável.

Quadro – Evidências destacadas no seminário

Pesquisa/Indicador

Implicação para a gestão

Pesquisa Nacional sobre Valorização dos Profissionais de Segurança Pública (UnB/SENASP, 2022)

Elevados níveis de estresse reforçam a necessidade de políticas preventivas, além da assistência psicológica.

Justiça procedimental

Tratamento respeitoso, reconhecimento e participação reduzem fatores de risco organizacionais.

Grid Gerencial de Blake e Mouton

Liderança integradora tende a conciliar desempenho institucional e saúde ocupacional.

Fluxo do estresse apresentado no seminário

Alta identificação + percepção de injustiça podem evoluir para frustração, estresse crônico e burnout.

Texto: Jose Vicente da Silva Filho, Coordenador do Ciclo de Seminários sobre Saúde Mental e Trabalho Policial e Membro do Conselho da ESEM.

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